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segunda-feira, 10 de julho de 2017

A Religião na Suméria


A civilização Suméria é considerada a primeira civilização na História da Humanidade. Localizada no Crescente Fértil esta civilização perdurou vários séculos, desde 3000 a.C. até cerca de 2350 a.C. 
Apesar de caracterizada por diversas inovações técnicas, decidi focar-me num aspecto importante das civilizações pristinas: A Religião. 

Na Suméria, durante o período denominado de proto-dinástico ou dinástico arcaico, a religião possuía um papel importante na sociedade, pois representava a sua estrutura social. Podemos, até, referir que as cidades sumérias eram caracterizadas pela presença de um templo central e grande parte do poder político de uma cidade estava nas mãos dos seus sacerdotes.

  • O Mito da Criação Sumério
Todas as civilizações possuem, nas suas crenças, um mito da criação, em que justificam a criação do Mundo e do Homem em si. A Suméria não é excepção. Analisando um excerto de um texto sumério, denominado pelos historiadores como “Gilgamesh, Enkidu e os Infernos”, podemos concluir como os sumérios acreditavam que o Mundo tinha sido criado:

Depois de o céu ter sido afastado da Terra, 
Depois da Terra ter sido separada do céu,
Depois de o homem ter sido fixado,
Depois de Án [o deus do céu] ter arrebatado o Céu,
Depois de Enlil [o deus do ar] ter arrebatado a Terra…” 

Assim sendo, podemos concluir, seguindo o raciocínio de Samuel Kramer, em determinada altura existia uma ligação entre a Terra e o Céu e que estes foram afastado, tendo o deus do Céu (Án) levado o Céu e o deus do Ar (Enlil) levado a Terra. Iremos explorar este momento da criação de seguida.

Primeiro, analisemos a questão: quem criou a Terra e o Céu? Esta resposta encontra-se numa placa que contém a lista dos deuses sumérios. Nesta encontramos a referência a Nammu, que está referida como sendo o “mar primordial” ou, mais detalhadamente, “a mãe que deu origem ao céu e à Terra”. 

Assim sendo, chegamos à conclusão que, inicialmente, tudo tinha sido criado pelo mar primordial, segundo os sumérios. Não se sabe ao certo qual a origem deste mar primordial, acreditando-se até que pode ter sido um conceito eternamente existente. 

Retornando ao mito da criação, quando se fala da separação da Terra e do Céu, é necessário entender como esta separação se processou. 

Comecemos primeiro por estabelecer que o mar primordial criou uma montanha, constituída pela união do Céu e da Terra. Porém, o conceito de Céu e Terra não era aquele que conhecemos, de algo físico, mas sim o de entidades. Céu (o deus Án) e Terra (a Deusa Ki) uniram-se e tiveram um filho chamado de Enlil, o deus do Ar. 

Assim, podemos prosseguir à separação do Céu e da Terra: Enlil, deus do ar, levou a sua mãe (Ki) enquanto o seu pai o Céu, Án, prosseguiu um caminho diferente. A união entre Enlil e sua mãe deu origem ao universo organizado: o homem, as plantas, os animais e a civilização.

E assim, se criou o mundo sumério.

  • As Divindades Sumérias
Uma das principais características das divindades sumérias é o seu carácter antropomórfico. Em semelhança ao homem, a divindade suméria possuía características humanas. Bebiam, comiam, agiam, planeavam, casavam e constituíam família e tinham uma vida quotidiana, como se tratassem de humanos. Para os sumérios, as divindades viviam na “Montanha do céu e da terra, o lugar onde o Sol nasce”. Quanto à sua deslocação, acreditava-se que dependia de divindade para divindade. O Deus da Lua, por exemplo, deslocava-se através de barco. Mas, já o deus do Sol viajava de carro ou a pé. Apesar de existirem centenas divindades na religião, existiam quatro divindades principais.
  1. An: Segundo os estudos dos especialistas na sociedade suméria, acredita-se que o deus An, deus do Céu, foi, por longos anos, o considerado deus supremo do panteão. Porém, eventualmente, An perdeu a sua importância, passando a ocupar o lugar de segundo plano no panteão sumério, dando lugar a seu filho, o deus Enlil. Este era responsável pelo céu, pelas constelações, espíritos e demónios e acreditavam que reinava pelas zonas mais altas da região. Ele tinha o poder de julgar crimes e de castigar os criminosos.
  2. Enlil: Enlil era considerado o deus patrono da cidade Nippur, o centro religioso da Suméria. Este cargo dava-lhe bastante importância no panteão, sendo actualmente considerado por especialistas como sendo a divindade mais importante do panteão, o que é confirmado também pela sua presença assídua em orações, oferendas, etc. O que levou a esta ascensão de Enlil, é ignorado pela maioria dos arqueólogos e investigadores, mas, segundo Kramer, existem diversos textos antigos sumérios que se referem a Enlil como “Pai dos Deuses”, o “Rei do Céu e da Terra” e o “Rei de Todos os Países”. Segundo os registos arqueológicos mais recentes, era Enlil que fazia “nascer o dia”, que tinha a piedade dos homens e que controlava o crescimento do Mundo, nomeadamente das plantas e dos animais. Segundo a opinião de Samuel Kramer, Enlil era um deus bondoso, fonte de fartura e de abundância, ao contrário da imagem que é espalhada nas enciclopédias sobre esta divindade, caracterizando-a como sendo violenta e destruidora.
  3. Enki: Este é o terceiro dos principais deuses do panteão sumério. Deus das águas, do artesanato, inteligência e da criação, foi quem organizou inicialmente a Terra, de acordo com as decisões de Enlil. Enki fica também responsável pela criação de diversos aspectos importantes na sociedade suméria tal como o alvião, o molde dos tijolos, instrumentos de construção e ainda enche a planície de vida vegetal e animal. É também considerado o deus de toda a sabedoria e magia, daí o seu cargo elevado na hierarquia do panteão sumério.
  4. Ninhursag: Esta divindade, considerada como deusa-mãe, e muitas vezes conhecida pelo nome de Ninmah (que significa “a dama majestosa”) chegou em tempos a ocupar um cargo mais elevado do que Enlil ou An. Muitos especialistas, acreditam que este se trata de um nome mais recente para Ki (A Terra) que foi esposa de An. Outro nome por que esta deusa é conhecida é Nintu (“a dama que dava à luz”). Esta divindade era considerada como a mãe de todas as criaturas, havendo registos de governadores sumérios afirmarem que eram alimentados pelo “leite de Ninhursag”.
  • O Culto Sumério
Os sacerdotes sumérios desde cedo associaram às diversas cidades diferentes deuses protectores, conforme as suas semelhanças. Um dos exemplos já falados anteriormente, é o da cidade de Nippur, cujo deus patrono era Enlil.

À semelhança do que aconteceria mais tarde na civilização grega, em cada cidade era dado um maior ênfase ao seu deus patrono. Porém, sempre foi dado um maior destaque às cidades de Nippur (com o deus Enlil) e à cidade de Uruk (com o deus An).

Segundo estudos, acredita-se que os deuses patronos de cada cidade são um sinal de que, antes da formação das cidades, os deuses eram espíritos protectores das tribos ou clãs que se localizavam em cada área e, posteriormente, deram origem às cidades sumérias.  

Na Suméria, cada templo era considerado como a casa dos Deuses e estava consagrado a um deus específico, por norma, o deus patrono daquela cidade. Era a sua moradia e o seu palácio, constituído – no caso dos templos maiores, como de Uruk e de Nippur - por um pátio principal, em redor do qual se erguiam divisões particulares, reservado aos seus sacerdotes. Neste templo localizavam-se todas as divisões necessárias para o quotidiano dos sacerdotes e para a realização dos ritos e das celebrações necessárias.

Existiam nas outras cidades também os templos para cada divindade patrono, porém de um tamanho mais reduzido do que aqueles referidos anteriormente. 
Os primeiros templos que surgiram na Suméria eram extremamente simples, estruturas de apenas uma divisão com pouco desenvolvimento arquitectónico, em que a entrada era permitida a toda a população e o altar era localizado no centro da divisão.

Apenas mais tarde se começa a assistir a um desenvolvimento na arquitectura que levou à construção de templos mais complexos. Com a complexidade da arquitectura a desenvolver-se, também a complexidade do sistema religioso sumério foi progredindo, levando a que o templo se tornasse somente acessível aos sacerdotes dos deuses.

Em termos estruturais, os templos mais avançados encontravam-se divididos em áreas, dando destaque a três áreas principais: adytum (chamado de “ki-ku” ou “espaço sagrado”) , abzu (que também era denominado de “santuário sagrado") e o duku (que significa “monte sagrado”). O adytum era o local onde era colocada a estátua da divindade. Eram feitas refeições como forma de oferenda e colocadas em frente à estátua (é importante referir que os sumérios não acreditavam que os deuses eram realmente as estátuas, estas eram apenas representações das suas divindades). 

O abzu e o duku são os locais mais misteriosos dos templos sumérios, tanto relativamente à sua função como à sua localização no interior do templo. Sendo que o nome abzu deriva do termo de fonte de água subterrânea, associada ao deus Enki, acredita-se que esta área estaria de alguma forma relacionada com a água, como uma pequena piscina ou poço e que esta água representaria a ligação com o subterrâneo.

Quanto ao duku, não se sabe ao certo nem existem fontes que nos confirmem, quais as suas características, mas é possível afirmar que se tratava de um local de julgamento.

Outra função associada ao duku será o de local para algum tipo de comida cerimonial. A dúvida da maioria dos investigadores é a ligação entre o local de julgamento e o local de alimentação, pois não existem fontes que nos possam esclarecer relativamente a este assunto. 

Os festivais religiosos na Suméria, devido à presença de deuses patronos em cada cidade, dependiam do calendário de cada cidade que, por norma, era organizado com base no ano agrícola, devido à importância da agricultura na sociedade suméria. 

Para além do calendário agrícola, os festivais sumérios estavam também dependentes das fases da Lua: os festivais mensais eram iniciados na Lua Nova, que era um símbolo de abundância e crescimento enquanto a Lua Minguante era associada à morte e retrocesso.

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Nota: Este artigo é uma adaptação de um trabalho referente à Religião na Suméria para a Unidade Curricular "Civilizações Pré-Clássicas" na Licenciatura de História da Universidade do Minho no ano 2011/2012.

Bibliografia:
Bottéro, J. (2004). La Religión más Antigua: Mesopotamia. Madrid: Editorial Trotta.
Grande História Universal III - O Egipto e os Grandes Impérios. Alfragide: Ediclube.
História Universal - A Antiguidade: Egipto e Médio Oriente. (2005). Editorial Salvat.
Kramer, S. N. A História começa na Suméria. Círculo de Leitores.
Kramer, S. N. (2010). Sumerian Mithology: A Study of Spiritual and Literacy Achievement in the Third Millennium B.C. Forgotten Books.
Religion in Mesopotamia and Primary Gods. (s.d.). Obtido em 13 de Janeiro de 2012, de Ancient Civilizations History Web Site: http://www.anciv.info/mesopotamia/religion-in-mesopotamia-and-primary-gods.html
Wilson, E. J. (s.d.). Inside a Sumerian Temple: The Ekishnugal at Ur. Obtido em 21 de Novembro de 2011, de Brigham Young University: http://maxwellinstitute.byu.edu/publications/books/?bookid=21&chapid=112